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Chocolate bueno

Desde de criança, sempre me deixei iludir muito por propagandas publicitárias. Cremes de cabelo, o ceda, bonecas que eu nunca poderia comprar, danoninhos e entre outras coisas. Depois que cresci, entrei na faculdade federal e desenvolvi pensamento crítico. Um detalhe é que sou aquariana, então eu radicalizava meus pensamentos críticos e os estendia a todos os âmbitos da minha vida e da sociedade, a conhecida chata militante. Mas sempre fui hipócrita em muitos pontos em relação ao capitalismo, porque eu fui uma criança sem poder aquisitivo, e usei a crítica ao consumismo para justificar que aquilo não era necessário e sim uma alienação. Sabe aquela pessoa que fala mal do iPhone mas nunca teve um? Eu era aquele tipo de pessoa. Até que eu pude comprar um. Com as publicidades, a quase uma década eu não me iludia com uma. Não a muito tempo, vi uma propaganda do chocolate bueno. O garoto propaganda mordia a casca e descia o que parecia ser uma calda grossa beje amarelada. Falei para meu namo...

Vida passada

Naquela noite eu estava deitada, descendo e descendo reels no Instagram, com o tédio no corpo e a culpa gritando na mente por causa da procrastinação. Na lateral de cima, no lado esquerdo do celular, desceu na barra de notificação uma imagem enviada por um velho amigo na qual, atualmente, nossa única forma de comunicação é trocar reels. Já fazem anos que só nos comunicamos assim, mas naquele dia ele estava completando ano e o parabenizei, ele completava 40+. Talvez essa tenha sido a primeira vez em mais de um ano que digitei de fato palavras e direcionei àquele amigo. Me respondeu seco “obrigada, desejo o mesmo pra você”. Duas horas depois me enviou uma foto. Deixe-me descrever a foto: éramos 8 amigos, esse velho amigo, o Wallyson do lado dele com o braço direito nos seus ombros, seguido pelo Musta quase de frente pra mim e de costa pro Wallyson, pelo Léo do meu lado, pela Amanda, pelo Diego enrolando os cachinhos e, por fim, o Marciel acócoras na frente. Estávamos todos a vontade e de...

Seu Zé

Julinha tinha penas 7 anos de idade naquela época, ela e seus outros 6 irmãos estavam brincando de polícia e ladrão. Eles corriam e pulavam na lama enquanto sua mãe plantava feijão. Enquanto Raimunda cavava os buracos e ponhava os feijões, Renato, seu filho mais novo, se aproximou gritando que Julinha tinha entrado em um lago e foi picada por uma cobra. Raimunda saiu correndo para ajudar a filha, mas quando chegou já havia se formado um pequeno poço de sangue ao redor do pé da menina. Raimunda arreganha os olhos assustada de preocupação com o que via. Isso não foi uma cobra que a picou. Primeiro ela arrancou um pedaço de tecido do vestido da Julinha e estancou o sangue. Depois jogou água para tentar ver a profundidade do corte. Raimunda percebeu que corte foi causado por um pedaço de vidro que estava jogado no lago. O corte era muito profundo e havia atingido uma veia, por isso Julinha perdeu tanto sangue. Aquele ano era 1979, na zona rural do sertão do interior do Ceará. O acesso à um...

Para me lembrar

Hoje estou com o coração despedaçado Me lembrei de nós dois Mas não posso me deixar enganar pela saudade Não posso me esquecer de suas mentiras Não posso deixar a saudade camuflar seus abusos A última coisa que você me falou foi: menti porque tenho medo das suas pressões Mas quantas mentiras você já inventou durante nosso relacionamento? Das que descobri, inúmeras Das que desconfiei e você me driblou me fazendo acreditar no contrário, mais do que as que eu descobri Naquele dia de mentiras, o último dia, me veio esse insight Tudo que vivemos foi fruto do seu g aslighting Você me fez duvidar da minha sanidade Lembro-me do dia que bebias do meu lado e, ao telefone, tentava comer a Maiara Eu vi que era ela, mas me convenceu que não, mesmo eu vendo que era E acreditei Depois de tantos anos, aprendi a entender sua forma de agir Me aperfeiçoei em ler você, sua fala mansa quando está mentindo, sua cara sínica, sua sedução para me distrair Sua cara que não treme ao inventar versões muito mal el...

Me acolho

Eu me acolho Acolho minhas fragilidades Minhas escolhas ruins Acolho todas vezes que me submeti as situações de abusos Meus medos E quando por dependência emocional escolhi ficar Acolho meu erros Minhas covardias Eu me acolho Porque todos esses issos São frutos da minha erê que não foi acolhida em suas fragilidades E porque, sem duvidas, precisei vivenciar esses traumas e angústias para perceber que sou mais forte Não consigo me imaginar dessa forma sem antes não passar por isso E me alivio de quem sou hoje Da forma como vejo o mundo agora Deus me livre de ser de outra forma Já não penso que preciso de alguém que me salve de me afogar Mesmo agora que vivencio a pior decepção amoroso da minha vida Estou finalmente feliz por estar onde estou Não que eu não sofra por ti, meu amor Eu te amo Mas te quero longe de mim E lamento por isso Mas estou melhor sem você E sofro, sinto saudades e choro, não minto Você me deixou mais forte, mas não escolhi isto Mas agora escolho ficar sem você Porque ...

Encontro com o eu criança

Em uma tarde de dezembro de 2024, Raimunda se encontrava no sertão do Ceará, na localidade onde nasceu. Ela viajou horas de avião para passar o natal e as férias em família. Naquela época do ano, as casas de seus familiares ficavam agradáveis e ao mesmo tempo sufocantemente cheia. Raimunda gostava de psicoativos para relaxar as vezes, e naquele dia a casa que ficava ao fundo da residência de sua avó estava vazia, uma casa sem móveis e apenas uma rede. Ela aproveitou aquele momento para fumar uma erva. Deitou na rede o pegou a ceda e a piteira, dichavou o prensado, colocou na ceda e bolou tranquilamente. Olhou no relógio, eram 16h20. Acendeu o baseado com seu isqueiro rosa. A lombra bateu na hora, o vento seco do sertão batendo de leve em seu rosto e ele grunhia feito um gigante soprando. O ferro que segurava a rede reclamava do balanço por falta de óleo. Fechou os olhos e apreciou aquele momento raro. Raimunda não sabe quantas horas ficou se balançando antes do diálogo com a sua Erê de...

À meus poemas

Tô cansada dos meus poemas  Cansada da mesma ladainha À anos escrevo sobre a mesma pessoa Os mesmos abusos O mesmo encantos e desencantos Meus poemas mais parecem um grito mudo de socorro  São degradantes, uma verdadeira vergonha alheia. Tô cansada dos meus poemas Cansada da monotonia sobre mim mesma À anos escrevo sobre meu espelho As mesmas sabotagens A mesma atitude de culpabilizar os outros por meus fracassos  Meus poemas mais parecem um esgoto Descartados minhas fezes, um verdadeiro fedor. Tô cansada dos mesmos poemas  Cansada da minha covardia  À anos escrevo sobre quão me submeto a situações de abuso por medo de sair da minha zona de conforto As mesmas submissões  Meus poemas mais parecem uma literatura do século xix São massivos, sempre o mesmo vitimismo.

fronteira

Deslizo a cadeira de plástico até à varanda E com ela um barulho estressante para quem está do lado Devido o atrito dos dois pés da cadeira com a cerâmica  Em minha mão direita um cigarro  Na esquerda um capulho bolado Sento pendurando minhas pernas na proteção de ferro da varanda E acendo o cigarro olhando para a avenida barulhente, como minha mente E desfruto del Paraguay Avistando do Brasil Um privilégio dedicado também a uma proletariada como eu  Mas o privilégio de morar de frente para outro país é de poucos  Em fim acendo o capulho E a fumaça desliza em meus pulmões  Organizando minha mente  Me permitindo viajar sem sair do lugar Com vista para Cidade Del Leste  Que descansa do comércio caótico do dia Penso que tenho que aprender a falar portunhol logo E morar entre três fronteiras latinas é ideal Meu capulho já na metade  Me faz pensar que morar em Foz é ideal também para quem dá uma panca Pois é barato e verdinho Ajuda na redução de danos ...

serpente

Me encontro rastejando entre angústias  Sobre minhas escolhas Me obrigando a lembrar que tudo tem um preço Me encontro realizada em meus planos Com veneno das lembranças pingando em minhas presas Me obrigando a lembrar que para poder amar  Tive que sentir a dor da traição  Que para alcançar meu título  Tive que sacrificar o convívio com meu alicerce, minha família  Para ser respeitada tive que crescer até trocar de pele Um sonho também tem uma carga  Tanto para sonhar quanto para realizar. Nas entranhas mais escondidas de minha pele Só eu sei o que passei para rastejar até aqui  E o aqui é construído por experiências Que agora são lembranças Destacadas em um couro duro. Hoje sou uma serpente ansiã De cores opacas devido o tempo Lenta, até  Mas mais traiçoeira devido a maturidade.

herança

Carrego as violências que meus ancestrais vivenciaram escritas em cada detalhes de minhas veias Cada dor que não foram expressas em palavras Mas que foram transmitidas de geração em geração Mas que se matém por falta de palavras Por muitas vezes terem se tornado tradições

raiva

Você me faz sentir como se eu fosse uma criança agredida, desrespeitada Você invade meu espaço como um adulto insultando uma criança, praticando bullying com ela É assim que eu me sinto Sinto raiva Sinto vontade de te agredir, te chutar Desgraçado, frustrado, abusivo! Mas você é maior que eu Então eu choro. Deixei você se aproximar tanto de mim Que fiquei fraca, imobilizada Dependente, humilhada Você viu em mim um espelho dos seus sonhos fracassados Me exaltou, subiu nos meus ombros e me fez como pódio, pisando em mim Depois quis me rebaixar ao seu nível para elevar o seu Dependente de mim para se sentir por cima Me enforca para respirar.

Transmutação

Tô afogada na minha própria angústia Não sei como respirar, queria gritar Chorar pro mundo inteiro ouvir  Mas tô afogada no meu próprio silêncio Por me sentir envergonhada de pedir ajuda Vergonha de demonstrar fraqueza Receio de pedir que alguém me puxe Estou consumida por dentro Destruída Tô cansada E não sei como sair desse buraco E tudo por causa de um macho Que deveria ser meu aconchego Meu sossego Mas que acabou se tornando meu carma Estou perdida Desiludida E Destruída por dentro Uma vontade de matar Esse amor que a cada dia só se torna ódio E como Pomba-Gira matá-lo com 7 facadas encima do coração E serei sim Pomba-Gira  Mas como uma cobra, serei fria e trocarei de pele  Transmutando todo esse ódio em cura Transformando esse veneno em antídoto E vou dar o bote quando menos esperar, elegante como uma serpente.

Você

Quando eu era criança você era a mulher mais incrível do mundo Me sentia protegida e amparada, mesmo com a falta que era não ter um pai Mas até isso você fez por nós Casol com um homem, mesmo sem amor Por nós Um homem que chamei de pai Um homem com bloqueios emocionais Mas claramente de coração grande, pois assumiu as filhas de outro homem Você sempre ressaltava isso que chamavam de dádiva, de sorte, de um grande favor Como se não houvesse interesses da parte dele E você a coitada abandonada grávida Desesperada, desamparada, fragilizada  Mas sempre foi uma covarde, medrosa, vítima. Nunca foi por nós. Sempre foi por você  Tenho medo de me tornar um espelho seu. Você nunca quis encarar a realidade de frente, sozinha  E ainda chamava de sorte Cresci me sentindo na obrigação de ser grata a um homem que me violentava Que gostava de me olhar E você fechava os olhos, mãe Acorbertava as violências, por ter medo de morrer sozinha E eu te romatizei a vida toda.  Você me manipu...

Tratamento de silêncio

Fazem uma semana desde que nos falamos pela última vez Não por falta de tempo ou de vontade Mas orgulho mesmo Não, não é por orgulho Para mim é uma forma de não cair no seu jogo de manipulação E para você é uma forma de me controlar Você esperou eu alcançar meus sonhos do seu lado E quando alcancei, você quis me privar Quis colocar condições para que eu pudesse usufruir dos sonhos que realizei com meu suor, meu mérito Nitidamente um frustrado Me impôs um tratamento de silêncio Por me ver dependente de você Dizendo que eu é que vou perder  Claramente estou transtornada Novamente vitimisada Passivamente violentada E cansada desse papel Tudo isso me dá vontade de vomitar De me vingar De te manipular e depois te dar um pé na bunda Ser suja como você  Mas pergunto se valeria apena me tornar infeliz indo contra meus princípios, mais uma vez por sua causa  Porque já fiz isso antes, e vou dizer Não valeu apena, pois foi isso que me manteve do seu lado até agora Jogar seu jogo suj...

Erê

Eu tenho um erê dentro de mim Esse erê foi impedido de crescer Pelo sofrimento Quando em carne ele foi abusado Foi humilhado, sexualizado Enquanto ele chorava e pedia socorro por dentro Por fora, ele gargalhava e corria na chuva e pulava na lama Sua mãe não tinha tempo de protegê-lo, até acobertava a realidade, por medo de morrer sozinha Ah erê! Hoje eu o sinto dentro de mim Fazendo birra Cobrando a presença de uma mãe e cuidados Chora e chora de frustração Diz que sou adulta e posso cuidar da gente  Cobra de mim, enrolada, que o cuide e não permita que ninguém me machuque, pois ele sente gatilhos com minha dor E esses gatilhos me acertam e choro com ele Fico imobilizada Ah erê! O vejo uma menina frágil  Com medo dos homens que o machucou  Das mulheres que não te cuidou  E me sinto desamparada com essa dor É então que me vejo me forçando força  Por você  E pra fugir de todos que nós machucaram Alguns momentos nos abraçamos E seguimos nois dois Um com o outr...

Eu sou mulher, eu sou forte

Eu sou mulher, eu sou forte Sinto no peito um buraco oco  Que ecoa no corpo todo Eu sou mulher forte Mais uma vez me encontro voltando para trás  Rejeitada, fracassada Por causa de um amor Minha vida toda me coloquei em situações de rejeição, de conformismo Mas sou mulher forte Abortando mais um sonho  Criado encima de um macho Narcisista, abusivo e prestativo Mas eu sou forte Expressando meu desespero em palavras Vitimista, revoltada, angustiada Consciente Mais uma vez voltando as raízes Quebrando ciclos E criando novas perspectivas Pois sou mulher, eu sou mulher forte.

O galo

Observo um galo de enfeite na beirada da estante improvisada Que ironia A metáfora perfeita À beira do precipício É assim que me sinto E o galo como que olhando pra baixo A um passo de se estraçalhar Qualquer esbarro e se torna apenas lixo O pior de se estar a beira de um precipício é olhar pra baixo Mas é engraçado ver a cara de contente do galo Mas essa metáfora pode ser interpretada mais como o limite entre o caminho percorrido e o desconhecido Forjado pela rebeldia Pela necessidade de encontrar novos horizontes Como se jogar em um caminhão sem saber o destino final  O desespero da juventude que impulsiona a mover Quando você percebe que tudo isso acaba  Que a juventude passa O desespero passa Que não terá impulso É então que você se apega à rebeldia Enquanto é jovem No final o galo é apenas um reflexo de mim.

O tempo

Sinto o tempo passar mais depressa Como se eu tivesse perdendo alguma coisa que fica cada vez mais distante de mim Também sinto um redemoinho dentro de mim Me corroendo, me consumindo Enquanto eu não consigo me mexer Parada olhando distante Enquanto por dentro tudo está destroçado Dançado ao vento do redemoinho Nunca me vi tão paralisada diante da idade Dirnorteada sobre o futuro Imatura apesar do tempo Me sinto cada vez mais criança Necessitada de colo Ansiosa, raivosa Infeliz. Penso que eu deveria fazer alguma coisa Que eu não estou fazendo da maneira certa Que fiz escolhas erradas Que sou responsável por minha vida Mas o tempo está passando rápido  E me vejo cada vez mais desprovida de tempo Podendo recomeçar mas me sentindo cansada das minhas próprias decisões.

reconexão

Houve um tempo Que percebi que os dogmas e crenças que aprendi na formação do meu caráter Eram apenas uma forma de controle  De castração. Aquilo expandiu minha mente Não existiam punições e carmas, eu poderia tudo. O mundo estava em minhas mãos Até que me perdi na liberdade de poder tudo Encontrei pessoas que tinham o mundo nas mãos. Seres impunes de crenças limitantes. Que sugavam tudo e todos ao seu favor. Conheci o poder da manipulação, mas também da sujeira que estava por baixo. Me vi refletida em um espelho infinito de pessoas iguais a mim. E isso tirou minha fé. Tudo se tornou uma competição de decifração da sujeira do outro. Éramos todos animais. Recentemente, comecei a me reconectar com alguma coisa ancestral  Que precisei buscar pra não afundar na imagem que criei de mim.  Busquei nos meus traços afro-indígenas os princípios que pude me apropriar. O processo de conexão é diário e frágil, mas necessário para que eu possa tomar fôlego.

Não é pessoal

Traição amorosa é uma definição que fala sobre o outro Trair a confiança de alguém  Geralmente pra definir gaia, chifre As variações linguísticas vai de acordo com a cultura Mas como alguém pode ferir e machucar a outra desta forma? Não seria apenas um espelho? Porque quem trai não tá traindo à alguém Está apenas se satisfazendo Preenchendo um vazio individual Uma carência carmica da infância Algo fora do controle da outra Mas quando vem a tona parece se tornar pessoal com quem se sentiu traído Como uma culpa, vergonha Como se pudesse mudar o caráter externo Ou mesmo frustração por ter sido fiel Que nem o ditado "chifre trocado não dói" Como se devesse abrir mão do próprio caráter Sem pensar que o que deveria mudar são as escolhas Escolher ficar e parar de romantizar Ou escolher ficar consigo mesmo e entender que as escolhas das outras pessoas são individualizadas e limitadas a uma educação  E tá tudo bem também Quem comete uma traição que vem à tona ou não  Está traindo ...