Chocolate bueno

Desde de criança, sempre me deixei iludir muito por propagandas publicitárias. Cremes de cabelo, o ceda, bonecas que eu nunca poderia comprar, danoninhos e entre outras coisas. Depois que cresci, entrei na faculdade federal e desenvolvi pensamento crítico. Um detalhe é que sou aquariana, então eu radicalizava meus pensamentos críticos e os estendia a todos os âmbitos da minha vida e da sociedade, a conhecida chata militante. Mas sempre fui hipócrita em muitos pontos em relação ao capitalismo, porque eu fui uma criança sem poder aquisitivo, e usei a crítica ao consumismo para justificar que aquilo não era necessário e sim uma alienação. Sabe aquela pessoa que fala mal do iPhone mas nunca teve um? Eu era aquele tipo de pessoa. Até que eu pude comprar um. Com as publicidades, a quase uma década eu não me iludia com uma. Não a muito tempo, vi uma propaganda do chocolate bueno. O garoto propaganda mordia a casca e descia o que parecia ser uma calda grossa beje amarelada. Falei para meu namorido, humm.. parece uma delícia. Depois daí passei a observar o preço dele e notei que era uma pequena barra por 12 reais. Achei caríssimo e pensei que deveria realmente ser muito bom pra quele preço. Tinha que ser muito bom. Meu pensamento crítico pensou que na verdade não tinha nada demais e era apenas o capitalismo. O investimento na propaganda somou no preço do chocolate, e, talvez, por causa do investimento, as pessoas passaram a consumi-lo mais, valorizando-o no mercado de cacau. Deixei de lado e não levei. Passou umas semanas, fui no atacadista da Av. JK e, pasmem, o bueno estava com desconto de cinquenta por cento. Estava por 6 reais. Eu tinha dinheiro naquele dia, e, apesar de ter uma fatia enorme de bolo e outras golozeimas doces na geladeira e eu não estar mais tão curiosa sobre aquele chocolate, eu comprei por estar na promoção. Voltei pra casa e guardei na geladeira até bater a necessidade. Eu não parava de pensar nele, mas também não tinha chegado o momento perfeito pra experimentá-lo. No outro dia, abri o WhatsApp e tinha num grupo a publi de um show grátis do Chico Cézar aqui no Sul. Era naquele mesmo dia. Pensei, tenho dinheiro, faz tempo que não saiu pra um rolê. Eu vou. Eu já havia feito umas reclamações pro meu boy que fazia tempo que gente não saía pra curtir. Então, propus e ele aceitou na hora. Compramos umas amistel pra beber antes e não precisar gastar muito com bebidas lá. Depois do almoço não comemos nada. Eu não estava com fome, mas lembrei do chocolate bueno e coloquei na bolsa, caso batesse a fome antes do final do show. Eu não queria perder tempo em fila de nada. O show era 20h até 22h. 20h30 estávamos saindo de casa. Chegando lá, eu queria ir pra frente pra gravar o Chico de perto, pois o palco era baixo e não estava superlotado, dava pra chegar na frente. Falei pro meu boy ficar na fila da cerveja enquanto vou na frente tirar foto. Quando voltei não vi meu boy e agora eu tinha que decidir entre procurar ele ou voltar e assistir o show do Chico de perto, e já tínhamos atrasado 40 minutos. O procurei uns minutos e não achei.A internet não funcionava. Fui ver o show. Nos encontramos no final. Quando a multidão se dissipou o avistei a uns metros e o chamei. Ele veio até mim me questionando se eu tinha ido pra outro rolê e dei um perdido nele. Pensei a mesma coisa de você, mas lembrei que você é míope, respondi. Eu disse o que aconteceu. Fomos na fila da cerveja. Enquanto isso ele voltou a me questionar sobre o perdido e começamos a discutir na fila da cerveja. Ele aumentou o tom de voz e falei pra ele falar baixo se não eu ia dar na cara dele. Ele continuou. Minha cabeça começou a esquentar e esqueci de respirar, a raiva subindo. Gritei alguma coisa ofensiva e disse que eu fui pra assistir o show e não pra brincar de pique-esconde. Pra me acalmar, lembrei do bueno, peguei o chocolate da bolsa. Ainda com raiva, senti como bueno era por dentro da embalagem. Parecia dois canudinhos de chocolate. Abri o saco, e, pasmem, tinha dois canudos em subs saquinhos transparentes separados dentro da embalagem principal. Achei um absurdo. Capitalismo puro. Abri o primeiro saco, tirei o chocolate pra fora e o levei até a boca com raiva. Igual ao garoto propaganda, o mordi com o intuito de descer aquela calda grossa, que sequer saiu do lugar. Me surpreendeu o quanto era leve, comparado aquele bis de caixinha. Afinal o bueno é mais saco do que chocolate. Comi e o açúcar me distraiu da minha gastrite nervosa e da vontade de matar meu namorido. Pegamos a cerveja e fomos comprar um churrasco de palito pra mim. Do lado do banco, avistei um iPhone esquecido, do lado da churrasqueira, mas um pouco afastado. Falei pro meu boy e ele queria pegar o celular em silêncio, pra ninguém notar. Falei que era pra perguntar o churrasqueiro se era dele primeiro. Ele perguntou e o churrasqueiro disse que não e, como se tivesse ajudando, falou pra dar pra moça do caixa, onde vendia as fixas. Pedi pro meu namorado se informar primeiro se havia um achado e perdido, mas ele já estava entregando o celular pra moça. Sentamos lá no mesmo banco e começamos a lamentar que provavelmente eles iam ficar com o celular. O churrasqueiro me deu de graça um churrasco de porco. Tava bem suculento. Depois ele nos deu um churrasco de linguiça também de graça. A moça do caixa finalmente saiu de expediente e foi até o churrasqueiro e o deu um beijão de língua. Eles eram um casal. Os dois se agarraram e começaram a dançar e a gargalhar. Deve ser porque acabou o expediente. Antes de saírem nos deram mais um churrasco e o churrasqueiro piscou pra meu namorado. Me senti um pouco burra por não ter ficado com o celular. Meu namorado tá com um celular quebrado e um iPhone 14 pouparia comprar outro telefone. Ainda mais morando na fronteira com o Paraguay, seria muito fácil desbloquear. Pergunto ao meu boy se ele se sente mal por isso. Ele diz que não. Eles trabalharam até essas horas e saíram felizes porque ganharam um celular. Já a gente saímos de bucho cheio de comer churrasco. Rimos. E você? Respondi que me senti mal sim, mas eu não ia denunciar eles. São pobres como agente. To feliz por eles. E talvez quem perdeu não vai fazer nem falta. Tenho um beck aqui. Vamos sentar na grama e f1 enquanto chamo o Uber. É meu último beck. Temos que chegar umas 23h30, porque o pessoal do corre só faz entrega até meia noite. Por que não deixa pra comprar só amanhã? Porque não vai sobrar pro resto da noite, respondi. Aceitou. 4 minutos.

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