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Encontro com o eu criança

Em uma tarde de dezembro de 2024, Raimunda se encontrava no sertão do Ceará, na localidade onde nasceu. Ela viajou horas de avião para passar o natal e as férias em família. Naquela época do ano, as casas de seus familiares ficavam agradáveis e ao mesmo tempo sufocantemente cheia. Raimunda gostava de psicoativos para relaxar as vezes, e naquele dia a casa que ficava ao fundo da residência de sua avó estava vazia, uma casa sem móveis e apenas uma rede. Ela aproveitou aquele momento para fumar uma erva. Deitou na rede o pegou a ceda e a piteira, dichavou o prensado, colocou na ceda e bolou tranquilamente. Olhou no relógio, eram 16h20. Acendeu o baseado com seu isqueiro rosa. A lombra bateu na hora, o vento seco do sertão batendo de leve em seu rosto e ele grunhia feito um gigante soprando. O ferro que segurava a rede reclamava do balanço por falta de óleo. Fechou os olhos e apreciou aquele momento raro. Raimunda não sabe quantas horas ficou se balançando antes do diálogo com a sua Erê de...

À meus poemas

Tô cansada dos meus poemas  Cansada da mesma ladainha À anos escrevo sobre a mesma pessoa Os mesmos abusos O mesmo encantos e desencantos Meus poemas mais parecem um grito mudo de socorro  São degradantes, uma verdadeira vergonha alheia. Tô cansada dos meus poemas Cansada da monotonia sobre mim mesma À anos escrevo sobre meu espelho As mesmas sabotagens A mesma atitude de culpabilizar os outros por meus fracassos  Meus poemas mais parecem um esgoto Descartados minhas fezes, um verdadeiro fedor. Tô cansada dos mesmos poemas  Cansada da minha covardia  À anos escrevo sobre quão me submeto a situações de abuso por medo de sair da minha zona de conforto As mesmas submissões  Meus poemas mais parecem uma literatura do século xix São massivos, sempre o mesmo vitimismo.

fronteira

Deslizo a cadeira de plástico até à varanda E com ela um barulho estressante para quem está do lado Devido o atrito dos dois pés da cadeira com a cerâmica  Em minha mão direita um cigarro  Na esquerda um capulho bolado Sento pendurando minhas pernas na proteção de ferro da varanda E acendo o cigarro olhando para a avenida barulhente, como minha mente E desfruto del Paraguay Avistando do Brasil Um privilégio dedicado também a uma proletariada como eu  Mas o privilégio de morar de frente para outro país é de poucos  Em fim acendo o capulho E a fumaça desliza em meus pulmões  Organizando minha mente  Me permitindo viajar sem sair do lugar Com vista para Cidade Del Leste  Que descansa do comércio caótico do dia Penso que tenho que aprender a falar portunhol logo E morar entre três fronteiras latinas é ideal Meu capulho já na metade  Me faz pensar que morar em Foz é ideal também para quem dá uma panca Pois é barato e verdinho Ajuda na redução de danos ...

serpente

Me encontro rastejando entre angústias  Sobre minhas escolhas Me obrigando a lembrar que tudo tem um preço Me encontro realizada em meus planos Com veneno das lembranças pingando em minhas presas Me obrigando a lembrar que para poder amar  Tive que sentir a dor da traição  Que para alcançar meu título  Tive que sacrificar o convívio com meu alicerce, minha família  Para ser respeitada tive que crescer até trocar de pele Um sonho também tem uma carga  Tanto para sonhar quanto para realizar. Nas entranhas mais escondidas de minha pele Só eu sei o que passei para rastejar até aqui  E o aqui é construído por experiências Que agora são lembranças Destacadas em um couro duro. Hoje sou uma serpente ansiã De cores opacas devido o tempo Lenta, até  Mas mais traiçoeira devido a maturidade.

herança

Carrego as violências que meus ancestrais vivenciaram escritas em cada detalhes de minhas veias Cada dor que não foram expressas em palavras Mas que foram transmitidas de geração em geração Mas que se matém por falta de palavras Por muitas vezes terem se tornado tradições

raiva

Você me faz sentir como se eu fosse uma criança agredida, desrespeitada Você invade meu espaço como um adulto insultando uma criança, praticando bullying com ela É assim que eu me sinto Sinto raiva Sinto vontade de te agredir, te chutar Desgraçado, frustrado, abusivo! Mas você é maior que eu Então eu choro. Deixei você se aproximar tanto de mim Que fiquei fraca, imobilizada Dependente, humilhada Você viu em mim um espelho dos seus sonhos fracassados Me exaltou, subiu nos meus ombros e me fez como pódio, pisando em mim Depois quis me rebaixar ao seu nível para elevar o seu Dependente de mim para se sentir por cima Me enforca para respirar.

Transmutação

Tô afogada na minha própria angústia Não sei como respirar, queria gritar Chorar pro mundo inteiro ouvir  Mas tô afogada no meu próprio silêncio Por me sentir envergonhada de pedir ajuda Vergonha de demonstrar fraqueza Receio de pedir que alguém me puxe Estou consumida por dentro Destruída Tô cansada E não sei como sair desse buraco E tudo por causa de um macho Que deveria ser meu aconchego Meu sossego Mas que acabou se tornando meu carma Estou perdida Desiludida E Destruída por dentro Uma vontade de matar Esse amor que a cada dia só se torna ódio E como Pomba-Gira matá-lo com 7 facadas encima do coração E serei sim Pomba-Gira  Mas como uma cobra, serei fria e trocarei de pele  Transmutando todo esse ódio em cura Transformando esse veneno em antídoto E vou dar o bote quando menos esperar, elegante como uma serpente.